RACHADURAS


Eu saio do aeroporto. Tu não ta mais lá. O som da chuva me irrita com seu clichê; quero chorar, mas to muito seco pra isso. A imagem de tu partindo não sai da minha cabeça. Eu já tive o teu presente. Agora só tenho essa memória, esse momento de passado que tu continua me mandando pela internet. Eu só consigo sentir as ondas da tua luz, a projeção da tua pele que irradia do meu computador. Amor imaterial. Espera imaterial. Cada vez que nos separamos é como se nosso corpo se desintegrasse e como se nós tivéssemos que aprender a interagir com esse avatar, a tocar as ondas que emanam da tua luz. Eu fui revelar os filmes e eu vi que o minilab cortou um dos meus negativos. Quase ao meio. Eles simplesmente cortaram, como se fosse nada. Em duas partes. Agora eu tenho essa memória que ta rasgada em duas, que foi aberta ao fluxo sem sentido de vento e luz e poeira que nos toca a todo instante. Ta todo mundo ficando louco ... Teve esse ataque terrorista em Bruxelas, 35 pessoas foram mortas. Eu me lembro das pessoas andando pelas ruas como se nada tivesse acontecido. Não que elas deviam viver com medo ou qualquer coisa do tipo. Mas era estranho. Essa felicidade com culpa. As pessoas pareciam ignorar a minha câmera. Ou tavam simplesmente ignorando todo mundo. A luz é tanto partícula quanto onda, tanto memória como presente. Tu não tá mais aqui mas eu ainda consigo te olhar. Alguém tacou fogo em alguma coisa no protesto. Tu me beijando no metro. Tem uma arma em cima da mesa. Quero explodir o oceano que nos separa.

I leave the airport. You're no longer there. The sound of rain irritates me with its cliché; I wanna cry, but I'm too dry for this. The image of you leaving is looping in my head. I've once had your present. Now I have only this memory, this moment of past that you keep sendingme through the web. I can only feel the waves of your light, the projection of your skin that irradiates from my computer. Immaterial love. Immaterial wait. Every time we're apart is like our body disintegrates and we have to learn to interact with this avatar, to touch those waves that your light emanates. I went to develop the films and I've found that the store had cut one of my negatives. Almost in half. They've simply cut it. In two parts. Now I have this memory that is shattered in two, that is cut open to the meaningless flux of wind and light and dust we face everyday. Everyone is losing their minds. There was this terrorist attack in Brussels, 35 people were killed. I remember people walking the streets like nothing had happened. Not that they should live in fear or anything. It was just weird. This guilty happiness. People seemed to ignore my camera. Or they were only ignoring everyone else. The light is both particle and wave, both memory and present. You're no longer there but I can still face you. Someone set something on fire at the protest. You kissing me at the subway. There's a gun over the table. I wanna explode the ocean that is between us.





Mark